A corrida é da inclusão.

Corrida da inclusão
por Júlia Cioffi.

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Comecei a correr há 13 anos, quando fui fazer intercâmbio para os Estados Unidos.

Na época eu nadava e como nos EUA os esportes não são treinados durante todo o ano (como acontece no Brasil) e sim apenas em determinadas épocas, as chamadas "seasons", após a temporada de natação decidi experimentar um tal de "Cross Country" e logo me apaixonei pela corrida.

Em 2001 eram poucas as pessoas que praticavam corrida aqui no Brasil e quando eu ia pra Lagoa as pessoas me olhavam com uma cara de "o que essa menina está fazendo?", ou, na academia, as pessoas vinham me perguntar "por que você fica correndo tanto tempo na esteira?". De lá pra cá muita coisa mudou... O esporte ganhou muitos adeptos e está, cada vez mais, conquistando a galera que curte esporte.

Nestes 13 anos eu também mudei muito e passei pelo que chamo de "fases da corrida". Nos primeiros anos eu corria horrores, praticamente todos os dias e longas distâncias e os calos e bolhas que então se formaram me acompanham até hoje. Chamo esta fase de "insana".

Depois, conforme foram surgindo corridas de rua, organizadas por Empresas Esportivas, entrei na época do "sem final de semana". Nesta fase eu participava de corridas todos os finais de semana... Gastava uma média mensal de R$400,00 com inscrições e acumulei blusinhas dryfit até dizer chega (isso sem mencionar as medalhas, que ainda estão penduradas no meu guarda roupa). Tudo o que eu fazia no final de semana era: CORRER.

Na sequência conheci uma galera muito bacana no clube que era associada, loucos como eu que também não mediam esforços para correr. Esta foi a fase mais gostosa e a única da qual verdadeiramente sinto falta, a fase dos "amigos da corrida".

Corríamos pelas ruas de Campinas em uma galera de até 12 pessoas pelo menos 3 vezes por semana... Fazíamos diversos percursos... Corríamos em vários horários... Viajámos muito para participar de provas em grupo... Maresias... Ilha Bela... Os amigos que fiz nesta época estão guardados no meu coração até hoje e sinto diariamente a falta de cada um deles. Os treinos não tinham um objetivo específico, a ideia era que cada vez mais pessoas corressem e sim, corríamos todos juntos - corríamos no ritmo do mais lento até que este melhorasse e pudéssemos aumentar o ritmo.

Mas, a vida seguiu para cada um de nós e, aos poucos, talvez até sem que percebêssemos, fomos diminuindo a frequência dos treinos... Indo cada vez menos às corridas fora da cidade...

Desde então tenho corrido sozinha, ora na esteira, ora na Lagoa... Correndo conforme minha disposição (ou a ausência dela), sem planilhas, sem grandes objetivos... Correndo simplesmente pela sensação de bem estar que a prática me proporciona.

Mas ontem, dia 17 de maio, tive a oportunidade de experimentar uma sensação que, até então, nunca havia sentido. Tive a oportunidade de correr ajudando uma mãe( Fernanda Terribile Tezin Ferreira ) que, há um ano, tem participado de algumas provas de corrida com seu filho cadeirante.

Nos revezamos em 5 mulheres, das quais eu conhecia uma única (as demais, incluindo a Fer, conheci 10 minutos antes da largada) - cada hora uma empurrava a cadeira do Dandan, com a ajuda das demais, que seguravam uma alça lateral.

Confesso que no quilômetro inicial eu estava tão tensa que tive que me concentrar na minha respiração para não passar mal de tanta tensão.... Eu só pensava em correr de maneira "suave" para que o Dan não sentisse muito o paralelepípedo das ruas do Cambuí. Aos poucos, a cada passo, a tensão foi passando e deu lugar a uma força inexplicável, ao ponto de eu ter que me policiar para não monopolizar a posição de condutora. A emoção de estar entre mulheres tão guerreiras, cada qual com a sua história de vida e de superação, fez com que eu entendesse, em um insight, que não era eu que estava empurrando o Dan, e sim o contrário.

Ontem foi o Dan que me empurrou, junto com aquelas 4 mulheres especiais. Eles, juntos, me empurraram para a minha nova fase de corredora, a fase "inclusão". Esta fase se difere das demais porque, pela primeira vez, corro não pelo MEU bem estar, mas por algo muito maior. Meninas ( Mariana Marangoni, Drica Siqueira, Fernanda Terribile e Alê Resch), conforme disse ontem, contem comigo para as próximas provas! Quem estará empurrando quem é difícil dizer... Mas isso pouco importa. O importante é que correndo forçaremos a sociedade a se questionar uma série de coisas, bem como o Estado, enquanto força de governo.

Correndo e avante!

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2 comentários

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Alessandra
19 de maio de 2015 04:14 delete

Muito lindo,parabens meninas!!!!!!!Um beijao no Dandam

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19 de maio de 2015 10:08 delete

Que lindo esse depoimento. As vezes precisamos voltar para o outro para nos encontrarmos. Parabéns!
Andréa Figueira

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